segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Agridoce


Todos os dias quando abria os olhos lutava contra a avalanche de pensamentos e lembranças que teimavam em permanecer em sua memória, tudo estava acabado e ela sabia, mas era difícil fazer seu coração entender isso e mais uma vez as malditas lagrimas vinham lhe molhar o rosto, já não bastava ter perdido tudo , tinha também que sofrer por causa disso ?
Era difícil aceitar que havia perdido e tudo lhe causava dor e sinceramente ela preferia não acordar, sabia que assim que acordasse tudo voltaria de novo e seu peito apertaria. Ei será que ele se lembrava dela? Por que ela definitivamente se lembrava dele e de tudo que tinha causado a ela.
Tinha um medo dos infernos de sofrer, ela nem queria isso, ela não tinha pedido nada disso, nada desse drama, então, será que as coisas poderiam voltar ao seu normal? só para que ela se recuperasse um pouco.
Ainda podia ouvir a voz dele dizendo que a amava e que a queria para sempre, como pode acreditar em tantas mentiras? Se ele a amasse não a deixaria sofrer assim. Se a amasse estaria com ela protegendo-a. Toca o celular, o mesmo numero que tantas vezes lhe ligara e lhe arrancara sorrisos com palavras bobas, agora lhe arrancava lágrimas.
Não atenderia não dessa vez. Será que era pedir demais, pedir para que ele deixasse de ligar? Não queria mais que machucasse, não merecia isso ela merecia algo melhor, quantas vezes mesmo ele disse que a protegeria? varias! Engraçado, logo ela que sempre se vangloriou da capacidade de saber quem mentia para ela, acreditou nas mentiras dele. Mais o que ela poderia fazer? ele mentia tão bem que ela chegava a acreditar cegamente. Agora ela estava sozinha, enquanto o celular tocava e ela se encolhia na cama como se o aparelho fosse uma cobra que daria o bote a qualquer momento.
As lembranças vinham cada vez mais fortes, mais nítidas, ela podia vê-lo ali na sua frente, podia senti-lo. Por mais que tentasse, ele estava cravado em seu coração, nada conseguia tira-lo de lá, e o telefone que não parava de tocar só servia para aumentar-lhe a dor, era forte, mas não o bastante para resistir a quem lhe conhecia tão bem, quem sabia todos seus pontos fracos.
Recusava-se atender, mais acabou por tomar o celular nas mãos e atender. Um "Alô" sussurrado e dolorido. Era impressão dela ou a voz dele estava um tanto quanto preocupada e sofrida? Mais que porra! Ela estava se enganando outra vez, se deixando levar pela voz doce e rouca dele. Ela não iria ouvir suas promessas de bom grado, não dessa vez. Mais ele a entendia tanto, e ela sabia que agora mesmo ele sabia que ela estava encolhida e com medo de falar demais, e ela o conhecia também. 6 anos não são pouca coisa, ela sabia que ele tinha um sorriso morto no rosto, sabia pelo modo como sua voz soava. Será que ele tinha descoberto sobre a mudança? Tinha pedido a sua mãe que não contasse a mãe dele sobre nada a respeito da mudança para outra cidade. Será que ele estaria ligando para dizer Adeus? Para pedir que ela ficasse?
“Eu preciso de você, tentei me enganar, fingir que não te amo. Mas você sabe o quanto eu estou sofrendo'' essas palavras rasgaram a sua alma e as lagrimas de dor rapidamente se transformaram em lágrimas de raiva, de ódio. Como ele ousara falar em amor depois de tudo que lhe causara? Como tivera a coragem de dizer que está sofrendo sabendo que ela estava nesse exato momento com seu coração e corpo despedaçado, esmagado ?
Não tinha direito, não podia fazer isso com ela. Puxou as cobertas sobre seu corpo e fechou os olhos enquanto ouvia as palavras que ele proferia contra ela e seu peito. "Só pode ser brincadeira" ela pensava insistentemente enquanto ele repetia "Eu te amo", "volta pra mim" e " Não vai embora", quantas vezes ela pediu pra ouvir essas palavras saindo da boca dele? Agora que elas saiam, ela simplesmente não conseguia acreditar, não queria. " Eu preciso desligar." ela sussurrou para ele que agora, também se encontrava calado do outro lado da linha. " Você realmente vai embora?" ele sussurrou de volta, os sussurros a lembravam dos momentos apaixonantes que viveram juntos.
Respirou fundo, engoliu o turbilhão de emoções que a faziam engasgar. '' Sim eu vou embora, eu preciso ir, não pertenço mais a este lugar, não pertenço mais a você. O que vivemos agora não passa de uma lembrança que me causa dor, magoa. Por favor, não insista. Foi você quem quis assim”
Ele respirou fundo, engoliu em seco algumas vezes enquanto olhava pro telefone na mão. Ela realmente iria deixá-lo, mais ele não podia culpa-lá por tudo, ele a mandou ir  embora de sua vida sem a menor piedade, trocou o amor certo dela por um que ele nem sabia se era real, e agora ela estava partindo e ele nem sabia o que fazer. Por que tinha que ter magoado ela? Agora eles poderiam estar deitados na grama do jardim, fazendo planos para daqui a 20 anos.
Ambos estavam sofrendo, mas ambos sabiam que era tarde de mais pra eles, por mais que se amassem, não conseguiriam consertar os estragos do passado. Por mais que quisessem não ficariam juntos nunca mais.
Ele a machucou muito e ela não sabia perdoar. Ele seguiu caminho até a porta da casa dela, em um ato desesperado e não premeditado, enquanto se aproximava da porta viu o amontoado de caixas marcadas com o nome dela e no meio das caixas a figura pequena e frágil dela, sentada nos degrau da varanda olhando um porta retrato que ele identificou prontamente como sendo o que ele a deu de presente no aniversário de 2 anos de namoro. Sentou-se ao lado dela que não fez sequer um movimento para descobrir quem se sentava ao seu lado.
Tocou sua mão e ela levantou o rosto o encarando de um modo dolorido. “ O que veio fazer aqui? Está louco?", ele sorriu torto, pelo menos ela estava falando com ele, " Eu precisava te ver, te dar um ultimo abraço e te pedir um ultimo desejo"
''Não temos mais tempo para isso, e eu não tenho mais forças. Deixe-me ir antes que eu me desfaça em mil pedaços. Você sabe o quanto eu queria poder esquecer e recomeçar, mas você sabe também que isso não é possível, pelo menos não agora. Por mais que eu queira, não posso mais”
"Eu não vou te pedir pra ficar, não hoje minha pequena. Eu só quero um ultimo beijo, só mais um, só pra eu não esquecer o gosto da tua boca" Ele pediu sussurrando e implorando enquanto erguia o rosto da "sua pequena". Ela o olhou com olhos suplicantes, aquilo iria destruir tudo que ela levou meses para remontar, mais ela não podia negar aos dois esse ultimo pedido, guiou os lábios em direção aos dele e selaram a despedida com um beijo cheio de dor e desespero, onde o gosto doce das bocas se misturava ao amargo e salgado das lágrimas. Então ele a abraçou, essa seria ultima vez que teria sua menina nos braços, sentiu o perfume do cabelo dela e beijou sua bochecha, virou-se e seguiu seu caminho para casa, não iria deixa - lá ver o quanto ele também estava quebrado, sabia que ela sofreria mais se o visse do modo como estava. Enquanto andava a ouviu sussurrar ao longe. " Podia ser diferente, podia ser eterno" então uma lagrima deu inicio a avalanche de outras, ele tentaria ficar bem, ele jurou que tentaria. Ela o olhou partir, enxugou os olhos e tocou os lábios, a lembrança eterna de um amor maldito.

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