domingo, 23 de junho de 2013

This could be the end.

Não é como se fosse realmente fácil de lidar, talvez a cabeça estivesse vazia demais entre um gole do cerveja e uma tragada do cigarro que descansava docemente entre os dedos finos e elegantes demais que contrastavam terrivelmente com as unhas curtas e roídas ocasionadas pelo nervosismo e pela ansiedade constante. Se fizesse um pequeno esforço conseguiria lembrar do que tinha ido buscar ali mas não sentia um pingo sequer de vontade ou de curiosidade. Estava bem do jeito que estava e o esquecimento momentâneo do que havia ido buscar a fazia se sentir bem por alguns segundos, de vez em quando é bom não ter nada passeando e dançando dentro da sua cabeça.
                Bateu os pés ritmadamente no chão de linóleo bem polido e chutou uma partícula imaginaria de poeira, que Deus a ajudasse, mas tinha certeza de que estava ficando meio louca depois de duas longas horas de um silencio desgraçado e de uma mente vazia de pensamentos realmente necessários. Pensar sobre a cor das paredes ou os livros escolhido para ornamentar a bonita estante que ocupava a parede a sua frente não eram coisas realmente necessárias mas pareciam ser tão interessantes se levasse em consideração que a outra saída seria pensar nele andando de mãos dadas com a vizinha da frente enquanto ela se remoia de ciúmes e raiva por saber que tinha sido trocada e que as páginas daquele livro confuso que ele era, estavam sendo viradas mais rápido do que ela poderia sequer imaginar. Jogou o cigarro no chão e apagou rapidamente com o solado da bota comprada a pouquíssimos dias em uma loja chique demais pra seu gosto por coisas baratas e estranhas, pensando bem era a primeira coisa realmente cara que comprava desde que tinha saído da casa dos pais um tanto de anos atrás. Ela meio que merecia isso, trabalhava duro, estudava pra caralho e tinha direito de se dar a alguns luxos de vez em quando mesmo que isso fosse pesar como o inferno no orçamento apertado dela. Porra, não tinha pensado nisso. Resmungou uma serie de palavrões e se endireitou quando ouviu a gargalhada dele ecoar pelo corredor.
                A garganta de repente se tornou seca demais, a cabeça parecia pesada e talvez, só talvez o ar não estivesse circulando corretamente dentro dos pulmões já manchados por tantos anos fumando seu bom e velho cigarro, tinha começado com quantos anos? Sabe lá, talvez uns dezesseis, ela só não conseguia pensar ao certo sobre isso enquanto parecia que seu estomago se recusaria a manter o almoço lá dentro. Então era aquilo, era assim que se sentia alguém que perdeu um pedaço de si e não sabe como seguir em frente? Mas por que diabos insistia em se torturar assim? Era assim que todo mundo agia ou era só com ela? Apoiou a testa contra a parede e respirou fundo, ouviu a porta do outro lado bater e então o barulho da chave girando ecoando pelo corredor, será que já era seguro olhar? Talvez dessa vez ele tivesse um resquício de saudade e lembrasse dos bons tempos e quem sabe poupasse-a de toda aquela merda que era observar ele e a vizinha rabugenta da frente aos beijos. Mas que caralho, odiava o bastardo e a filha da puta. Resmungou alguns outros muitos palavrões e prendeu o cabelo no topo da cabeça, levou a garrafa até a boca e tomou outro gole, buscou outro cigarro no bolso na calça mas lembrou de que não tinha sequer tido dinheiro suficiente pra comprar outro maço. Droga, não devia ter comprado as malditas botas.
- Vamos? – Ele a encarou quando ela girou lentamente para encarar os olhos dele, droga por um misero segundo quase vacilou em cobrir a expressão perturbada no rosto.
- Vamos.
Ele sorriu e agarrou a mão fina e elegante, enquanto ela continuasse voltando e o levando pra casa sempre que as coisas dessem certo ou errado, ele continuaria ali, segurando sua mão de vez em quando e rindo de tudo que ela dissesse. Vai ver um dia ela talvez percebesse que enquanto ele gargalhava e beijava a outra, era nela que ele pensava.


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