Não é como se fosse realmente
fácil de lidar, talvez a cabeça estivesse vazia demais entre um gole do cerveja
e uma tragada do cigarro que descansava docemente entre os dedos finos e
elegantes demais que contrastavam terrivelmente com as unhas curtas e roídas
ocasionadas pelo nervosismo e pela ansiedade constante. Se fizesse um pequeno
esforço conseguiria lembrar do que tinha ido buscar ali mas não sentia um pingo
sequer de vontade ou de curiosidade. Estava bem do jeito que estava e o
esquecimento momentâneo do que havia ido buscar a fazia se sentir bem por
alguns segundos, de vez em quando é bom não ter nada passeando e dançando
dentro da sua cabeça.
Bateu
os pés ritmadamente no chão de linóleo bem polido e chutou uma partícula imaginaria
de poeira, que Deus a ajudasse, mas tinha certeza de que estava ficando meio
louca depois de duas longas horas de um silencio desgraçado e de uma mente
vazia de pensamentos realmente necessários. Pensar sobre a cor das paredes ou os
livros escolhido para ornamentar a bonita estante que ocupava a parede a sua
frente não eram coisas realmente necessárias mas pareciam ser tão interessantes
se levasse em consideração que a outra saída seria pensar nele andando de mãos
dadas com a vizinha da frente enquanto ela se remoia de ciúmes e raiva por
saber que tinha sido trocada e que as páginas daquele livro confuso que ele
era, estavam sendo viradas mais rápido do que ela poderia sequer imaginar.
Jogou o cigarro no chão e apagou rapidamente com o solado da bota comprada a pouquíssimos
dias em uma loja chique demais pra seu gosto por coisas baratas e estranhas,
pensando bem era a primeira coisa realmente cara que comprava desde que tinha saído
da casa dos pais um tanto de anos atrás. Ela meio que merecia isso, trabalhava
duro, estudava pra caralho e tinha direito de se dar a alguns luxos de vez em
quando mesmo que isso fosse pesar como o inferno no orçamento apertado dela.
Porra, não tinha pensado nisso. Resmungou uma serie de palavrões e se
endireitou quando ouviu a gargalhada dele ecoar pelo corredor.
A
garganta de repente se tornou seca demais, a cabeça parecia pesada e talvez, só
talvez o ar não estivesse circulando corretamente dentro dos pulmões já manchados
por tantos anos fumando seu bom e velho cigarro, tinha começado com quantos
anos? Sabe lá, talvez uns dezesseis, ela só não conseguia pensar ao certo sobre
isso enquanto parecia que seu estomago se recusaria a manter o almoço lá dentro.
Então era aquilo, era assim que se sentia alguém que perdeu um pedaço de si e
não sabe como seguir em frente? Mas por que diabos insistia em se torturar
assim? Era assim que todo mundo agia ou era só com ela? Apoiou a testa contra a
parede e respirou fundo, ouviu a porta do outro lado bater e então o barulho da
chave girando ecoando pelo corredor, será que já era seguro olhar? Talvez dessa
vez ele tivesse um resquício de saudade e lembrasse dos bons tempos e quem sabe
poupasse-a de toda aquela merda que era observar ele e a vizinha rabugenta da
frente aos beijos. Mas que caralho, odiava o bastardo e a filha da puta.
Resmungou alguns outros muitos palavrões e prendeu o cabelo no topo da cabeça,
levou a garrafa até a boca e tomou outro gole, buscou outro cigarro no bolso na
calça mas lembrou de que não tinha sequer tido dinheiro suficiente pra comprar
outro maço. Droga, não devia ter comprado as malditas botas.
- Vamos? – Ele a encarou quando ela girou lentamente para
encarar os olhos dele, droga por um misero segundo quase vacilou em cobrir a
expressão perturbada no rosto.
- Vamos.
Ele sorriu e agarrou a mão fina e elegante, enquanto ela
continuasse voltando e o levando pra casa sempre que as coisas dessem certo ou
errado, ele continuaria ali, segurando sua mão de vez em quando e rindo de tudo
que ela dissesse. Vai ver um dia ela talvez percebesse que enquanto ele
gargalhava e beijava a outra, era nela que ele pensava.
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