domingo, 28 de outubro de 2012

              As batidas ritmadas me fizeram acordar do meu sono quase profundo, irritada pelas batidas eu tentei de todos os modos fingir que não existia ninguém lá fora e eu já podia voltar a dormir mas quanto mais   eu tentava mais batidas ecoavam pela casa. Levantei irritada, com aquele mau humor que só eu tenho, digno de uma atriz estressada da área menos cheia de recursos de uma hollywood decadente, porém, não sou esse personagem que você fantasiou. Sou a garota estranha, chata e com meias velhas que você nem se dignou a imaginar.
             Abro a porta e então ele entra, se apossando de tudo, tomando conta do meu sofá de couro italiano que eu ainda pago em 24 prestações de 125 reais, mas não me importo. Os pés são apoiados na minha mesa de centro, que eu sempre zelei e tentei manter inteira. Ele tem um cigarro na boca, os olhos parecem cansados e eu posso jurar que ele bebeu mais do que devia, mas isso é normal quando se trata dele. Idiota demais pra fazer alguma coisa certa e inteligente demais pra se matar de uma vez só.
             - Eu vou embora pro Havaí. Ele disse tirando o cigarro dos lábios e abanando na minha direção.
             - Sinto te informar mas o Havaí sofreu o ataque de um tsunami. Eu ri tomando o cigarro das mãos dele e dando uma tragada rápida.
             - Mas que porra, eu já comprei as passagens. O que eu faço com isso agora? Ele falou irritado, seguindo de um acesso rápido de tosse.
              - Sei lá, doa pra aquela tua prima irritante. Eu disse rindo alto.
              - Pode ser. Ele riu junto, o tipo de risada que ele quase nunca dava, mas que eu amava ouvir.
              - Vou buscar café. Eu disse levantando, mas a voz dele arrastada e baixa me fez ficar e ouvir.
              - Porque que a gente nunca deu certo?
            Aquele tipo de pergunta que te pega de surpresa e te faz rever uma vida inteira junto da pessoa, desde os primeiros dias saindo juntos até o segundo seguinte e então tu pensa... Porque mesmo que a gente nunca deu certo? E tu não sabe, mas não se importa.
               - Sei lá, acho que nunca tentamos o bastante ou tentamos demais e pra mim, tá tudo muito bom do jeito que tá. Pra que mudar? Eu perguntei sentando no chão, próxima a ele.
               - Acho que cansei daqui, cansei de tudo. Quero que tu venha comigo, pra onde quer que eu vá, mas eu quero que tu venha. Ele disse rindo alto. Com certeza álcool demais no sangue.
               - Cansou do que? Tu não faz nada dessa vida. Eu disse rindo
               - Eu me perco, cansei de ficar perdido. Me promete uma coisa?
               - Prometo. Juntei os dedos.
               - Não me deixa virar aquele velho rancoroso que tranca criancinhas irritantes no porão, não me deixa ficar sem fazer a barba, não me deixa decair feito um trapo, não me deixa nunca fazer mais merda do que eu posso aguentar. Promete? Ele pediu me puxando pro colo dele.
               - Prometo. Mas qual é a de tudo isso agora? Perguntei sorrindo de canto.
               - Não faço a minima ideia, mas eu queria que tu prometesse. E pode deixar, que eu prometo não deixar tu sair com essa saia horrenda na rua ou com essa cara de zumbi com fome. Ele falou me abraçando forte.
               - Não sei porque te aguento...
               - Porque um dia tu vai aceitar me aguentar pro resto da vida. Idiota.

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