Noite passada, enquanto eu tentava sem sucesso algum assistir um episódio qualquer de uma série qualquer, ele me encarava. Sério demais, quieto demais. Me perguntei se ele sabia, se ele já conseguia perceber que eu já não estava tão certa do que sentia, se ele já conseguia notar que eu pretendo ir embora qualquer dia desses.
"Tá olhando o que?" Perguntei meio indiferente, realmente já não me importava se olhava fixo pra mim ou se não olhava em momento algum. Aquele sorriso de lado apareceu, ele bagunçou os cabelos e olhou pra longe, um aviso mudo de que não iria responder a minha pergunta grosseira e então ele olhou de novo. Dessa vez o sorriso sumia e o olhar sério aparecia.
"Eu quero sempre poder te chamar de amiga, não quero mentir sobre isso, te quero por perto mesmo sabendo que tu já precisa ir. E sinceramente, eu já sei faz tempo que tu quer ir, então vai. Não vou te prender aqui, não vou te mandar ficar, não vou dizer que temos muito pra viver porque não temos. Porque você não vai ficar, porque você quer realmente ir. E pode ir, não vai me machucar mais do que tua estadia aqui tá machucando." Não sei em que momento aquilo me deixou sem ar, meio sem chão, envergonhada por ele saber que eu já não queria continuar.
E então eu percebi que machucava demais saber que eu não havia percebido antes, que já não havia uma maneira de ir sem magoar ninguém. Sem tempo pra pedir desculpa, sem tempo pra ser doce e gentil. Tarde demais pra dignidade, tarde demais pra "Eu nunca quis te magoar." Apenas um corte rápido e certeiro, sem volta. Só ida.
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