Já passa da meia noite, sei disso pelo barulho que faz lá fora. O barulho do vento, do silencio, do nada se movendo pela rua. Em uma tentativa frustrada de reação, puxo um caderno e uma caneta, coloco os fones no ouvido e escrevo como se não fosse existir um amanhã, mesmo sabendo que daqui a pouco, quando eu der conta, já vai passar das 5:35 da manhã e a casa inteira vai estar de pé, se preparando pra fazer alguma coisa realmente importante. Escrevo até que minhas mãos demonstrem sinais de cansaço, o pulso dolorido, os olhos ardendo, sabe lá porque eu faço isso, mas eu faço. E como uma eterna azarada que sou, percebo que a dor não foi, continua quietinha lá, na verdade se faz mais presente. Sou daquelas que acha que depois de cinco páginas lotadas de palavras o coração vai ficar mais leve, porém, não fica. Eu sinto bem mais do que se tivesse continuado quieta no meu canto, olhando o movimento de ninguém.
No final de tudo eu percebo que certas manias e certezas, nunca mudam. Continuam enterradas na gente mesmo depois de horas a fio tentando livrar-se de tudo. Existem dores que nunca vão sumir, perguntas que tu nunca vai responder, lugares onde você nunca vai chegar, manias que nunca vai perder e sentimentos que nunca vai parar de sentir. Mas uma vez, olho pra fora através da nossa nova janela de vidro e percebo que amanheceu de novo e essa, foi só mais uma noite perdida, mal aproveitada. Porque sinceramente, não me sobram boas palavras e já não sou tão coerente com o que escrevo. Me falta um tato e uma sensibilidade que já tive. Pego meu fiel companheiro no colo, lhe faço carinho nas orelhas, agarro minha xícara de chá já fria e me dirijo pro meu bom, velho e confortável quarto. Me embolo na cama, boto meu Cícero pra cantar e durmo. Já passa das 6.

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